Menino não chora, homem sim! - Epopéia

Menino, não chora!  Engole esse choro moleque!

Quem nunca ouviu frases como esta uma vez na vida que atire a primeira pedra, tóxicas como “menino não chora“, chorar é “coisa de mulherzinha”, deveriam ser banidas do nosso vocabulário. Os homens foram ensinados a silenciar as emoções e a esconder seus sentimentos.

Lamentavelmente, os impactos psicológicos e emocionais em homens na faixa etária de 30, 40 e 50 anos, são alarmantes é o que revela os dados levantados pela BBC: o SUICÍDIO é a maior CAUSA de morte de HOMENS nesta faixa etária na Grã Bretanha e as estatísticas do Brasil não ficam muito atrás. A verdade é que os homens estão literalmente se matando porque não conseguem falar!

Homem sério segura um papel com um sorriso desenhado em frente a sua boca

 

O dilema do silêncio

Os homens relutam em buscar ajuda, eles são silenciados por paradigmas machistas de não expressar os emoções ou compartilhar vulnerabilidades, por este motivo são mais propensos a impulsos autodestrutivos e comportamentos escapistas como beber demais.

Vamos analisar, por exemplo, como é a socialização entre pessoas do sexo masculino.  As falas são permeadas por homofobia, sexismo, alimentadas pela pressão das mídias e dos outros homens que sustentam tal mentalidade. As diferenças começam na criação, o menino é ensinado a corresponder aos 3 P’s da masculinidade tóxica: protetor, provedor e procriador.

Sim, ele tem que ser forte, viril, sedutor, inabalável mediante adversidades, e jamais demonstrar qualquer tipo de fraqueza, caso contrário; receberá o rótulo de “gay”, “sensível” ou uma variedade de outros adjetivos preconceituosos e pejorativos. Em suma, o homem não é incentivado a se abrir para sentimentos, mesmo que isso comprometa a sua sanidade mental.

⠀⠀Homem com uma mão tampando sua boca com expressão resignada

 

Na prática funciona mais ou menos assim: Você está triste porque terminou um relacionamento?  Então é melhor engolir o choro. Ainda que você não queira, é recomendável que você fuja do problema saindo com os amigos, jogando uma bolinha com a galera, tomando umas e outras para afogar as mágoas, falando de mulher para manter a “fama de pegador”, afinal, nada como uma boa transa pra curar a dor de cotovelo.

É curioso como os homens tem liberdade para sobre sua intimidade sexual, comparar o tamanho de suas genitálias, mas são totalmente coibidos de verbalizar fraquezas, inseguranças e frustrações.

“Sempre tive vontade de fazer terapia, mas o preconceito é muito forte. Expor fraquezas não está na natureza do homem, mas isto não é verdade, todos precisamos de ajuda.” (L.V.S., 45 anos, Diretor Financeiro)

 

 

Uma hora a conta chega!

A verdade é que os antídotos da masculinidade tóxica não curam a dor emocional.  Chega uma hora em que não há cervejinha que alivie, não há mulher que preencha o vazio emocional, ou happy hour com os amigos que te anime. A conta chega!  Os sentimentos de solidão fazem com quem você se sinta em pedaços e, mesmo assim, não há espaço pra manifestar a tristeza, a dor vai acumulando, trazendo sequelas emocionais como baixa auto estima, insônia, alcoolismo, depressão e ansiedade.

Homem com expressão ameaçadora segura a cabeça do outro forçando um sorriso

E as complicações não param por aí, já que a sociedade tem a saúde mental como um grande tabu, as pessoa não entendem a gravidade de uma depressão, ela não é vista como uma doença que precisa ser tratada. Com isso, os homens não buscam ajuda para suas mentes, mesmo que estejam, metaforicamente falando, com uma hemorragia.

 

A coragem para quebrar os padrões

Acima de tudo, é importante que os homens saibam que existem espaços seguros onde eles podem se expressar e receber ajuda.  Há que se quebrar os padrões de omissão. Silêncio não é sinônimo de força! O silêncio adoece, isola e mata.

Contudo, não vá pensando que este é um passo fácil, atenção ao spoiler alert: ao falar sobre seus sentimentos com as pessoas, existe a grande probabilidade de ouvir uma série de comentários tóxicos como  “para de viadagem, você está sendo dramático.” Aposto que, se isso não aconteceu com você ainda, certamente você conhece alguém que passou por esta situação.

“Em vários momentos ouço comentários desagradáveis de amigos e da família: que eu deveria conversar mais com meus amigos, tomar cerveja para esquecer os problemas, que é coisa de mulher, que homem deveria “transar e beber mais” ao invés de fazer terapia.”(R.L., 32 anos, Programador)

 

Mas tenha coragem pois existem aquelas pessoas que te ouvirão, pessoas que se importam com você e que reconhecem a importância da sua sanidade mental.  Meu conselho pra você é: aprenda a selecionar melhor suas companhias e escolha se abrir com aqueles que saberão te ouvir e te acolher.  Aprenda ainda a ser este tipo de pessoa que está disposta a ouvir e a calar os comentários tóxicos e machistas dos seus colegas. Entenda, que eles fazem o que fazem porque também não foram encorajados a demonstrar sentimentos, ou pior, foram ridicularizados ao fazê-lo.

Homem aponta o dedo com expressão de sarcasmo

O que ELES estão dizendo sobre a terapia

Neste período de pandemia, percebo um aumento na procura por terapia em pessoas do sexo masculino, felizmente a terapia online tem aproximado os homens deste trabalho importante de auto conhecimento.

“O mais difícil é dar o primeiro passo. A gente não imagina como as coisas pesam até colocar isso pra fora, a primeira sessão com a Sabrina foi uma mistura insegurança, medo do julgamento, mas ao mesmo tempo de clareza e alívio.” (J.F.S., 59 anos empresário)

As dores do universo masculino não são tão diferentes assim, os homens têm dificuldade em expressar sentimentos; sentem-se ansiosos pela pressão social de perfeição; preocupam-se em serem pais presentes e isso também vem associado a culpa muitas vezes; querem ter equilíbrio entre as áreas da vida e os papéis que desempenham.  As cobranças para os homens são diferentes, mas nem por isso, elas são menores e menos doloridas quando comparadas as do universo feminino.

“A terapia tem sido como uma luta de UFC: frase de nocaute, pancadas e nesta luta não tem perdedor.  No final sempre acho o cinturão de vitória.  Quando tomei a decisão de fazer terapia estava armado, mas aos poucos, percebi que não sabia de NADA.  O mais incrível são as descobertas que me desarmaram ao ponto de me deixar reconduzir a uma nova vida.  Terapia não é um remédio de dose única, é a arte da reconstrução.” (L.V.S., 45 anos, Diretor Financeiro)

 

Eu não choro, meus olhos estão apenas suando.

 

Uma mensagem final

Felizmente há um movimento sutil para a mudança deste cenário e vemos a nova geração mais aberta a discutir uma masculinidade possível ao invés de uma masculinidade tóxica, veja por exemplo o trabalho lindíssimo conduzido pelos meninos da Brotherhood Brasil, através de rodas de conversa, produção de documentários e conscientização nas redes sociais.

Atenção meninos, não é o câncer que mais mata os homens quando os dados são comparados ao suicídio.  A ironia é que vemos muito mais campanhas focadas em vencer tumores do que falar sobre as emoções.  Por isso, minha mensagem final para todos os homens é: falem, chorem, gritem e façam terapia!  E lembrem-se,  pedir ajuda não é sinal de fraqueza, é sinal de luta e esse processo é só para os fortes.

“A terapia me trouxe explicações que eu não sabia que precisava para dúvidas que eu não sabia que eu tinha. Fazer isso sozinho é impossível!   Saber que precisamos mudar exige muito mais coragem e força do que qualquer ‘macho forte’ que evita a psicoterapia ”  (R.L., 32 anos, Programador)

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